Cardiopatias em felinos domésticos: fatores associados, caracterização fenotípica e correlação entre achados clínicos, ecocardiográficos e eletrocardiográficos
Cardiomiopatia hipertrófica; comorbidades; diagnóstico precoce; estratificação de risco; remodelamento cardíaco
As cardiomiopatias representam a principal causa de morbidade e mortalidade cardiovascular em felinos domésticos, com destaque para a cardiomiopatia hipertrófica (CMH). O diagnóstico dessas enfermidades permanece um desafio na rotina clínica, principalmente devido à natureza frequentemente assintomática da espécie, à baixa sensibilidade do exame físico e à influência de doenças sistêmicas capazes de mimetizar ou agravar alterações cardíacas. Nesse contexto, a identificação precoce dos pacientes acometidos e a caracterização dos fatores predisponentes tornam-se fundamentais para o adequado manejo clínico e prognóstico. Esta dissertação teve como objetivo identificar potenciais fatores predisponentes às cardiopatias e caracterizar os fenótipos cardíacos em felinos atendidos no Hospital Veterinário Universitário Professor Dr. Ivon Macedo Tabosa da Universidade Federal de Campina Grande (HVUIMT/UFCG), correlacionando os achados clínicos, ecocardiográficos e eletrocardiográficos com variáveis individuais e sistêmicas. O trabalho foi composto por uma revisão de literatura sobre as principais cardiopatias felinas, métodos diagnósticos e abordagens terapêuticas, seguida de um estudo prospectivo envolvendo 17 felinos, distribuídos em grupo controle (n=6) e grupo cardiopata (n=11), este último subdividido em animais sintomáticos (n=6) e assintomáticos (n=5). Realizou-se análise descritiva dos dados, sendo as variáveis contínuas comparadas pelo teste de Mann-Whitney e as categóricas pelo teste exato de Fisher. Entre os fenótipos identificados, a cardiomiopatia hipertrófica foi a alteração mais frequente, seguida por cardiomiopatia restritiva, cardiomiopatia de fenótipo não específico e displasia da valva tricúspide. Os animais cardiopatas apresentaram idade significativamente superior à dos controles (P=0,003) e elevada frequência de doenças concomitantes, destacando-se doença renal crônica, linfoma, hipertensão arterial sistêmica e doenças brônquicas. Não foram observadas diferenças nas concentrações séricas de T4 total entre os grupos, permanecendo todos os animais dentro dos valores de referência. Ao exame físico, apenas um animal cardiopata sintomático apresentou alterações à ausculta cardíaca. Entre os parâmetros avaliados, a relação átrio esquerdo (LA/Ao) e a duração do complexo QRS foram as variáveis que melhor distinguiram os pacientes sintomáticos dos assintomáticos, refletindo o remodelamento cardíaco e as alterações de condução associadas à progressão da doença. Conclui-se que as cardiopatias felinas apresentam caráter multifatorial e frequentemente coexistem com doenças sistêmicas que podem influenciar sua apresentação clínica e fenotípica. A associação entre avaliação clínica, ecodopplercardiograma, eletrocardiograma e investigação de comorbidades mostrou-se essencial para o diagnóstico, estadiamento e manejo desses pacientes, reforçando a importância de uma abordagem cardiovascular integrada e contribuindo para o conhecimento da cardiologia felina no semiárido brasileiro.